Na estreia desta coluna eu mostrei que o campista trabalha, sim — só que fora do sistema formal. Hoje eu quero ir um passo além e fazer uma pergunta que incomoda muito empresário daqui: por que tanta gente boa, capaz, que já passou por comércio e indústria, prefere pegar a moto e trabalhar pra aplicativo?
A resposta fácil é "porque não quer ter patrão" ou "porque a geração de hoje não tem compromisso". É confortável pensar assim. Mas os números contam outra história.
O que os dados mostram
Uma pesquisa do Datafolha com motoristas e entregadores de aplicativo é clara: 91% preferem um modelo com flexibilidade de horário, liberdade para recusar corrida e renda proporcional ao esforço — mesmo abrindo mão de boa parte dos benefícios da CLT. Não é rejeição ao trabalho. É rejeição a um modelo de trabalho específico.
Do outro lado, os números do emprego formal de motoboy no Brasil mostram uma rotatividade brutal: cerca de 82 mil contratações e praticamente o mesmo número de desligamentos em um único ano. Ou seja: o emprego fichado nessa função não segura ninguém. As pessoas entram, veem que não compensa, e saem.
E aqui vem o dado que mais importa pra este texto: uma pesquisa nacional da CNI mostra que 36% dos brasileiros que estão procurando emprego ainda consideram a CLT a opção mais atrativa — inclusive entre os jovens. Ou seja: não é verdade que ninguém quer carteira assinada. O problema não é a CLT. É a CLT que a maioria dos comércios de Campos oferece: salário mínimo raso, sem plano de carreira, sem meta clara, sem reconhecimento.
A conta que o trabalhador faz — e o empresário não vê
Quando um rapaz troca o balcão da loja pelo aplicativo, ele não está fazendo uma escolha impulsiva. Está fazendo uma conta. De um lado, salário mínimo, horário fixo, chefe em cima, teto de ganho definido por outra pessoa. Do outro, ele banca a própria moto, o seguro, a gasolina, o celular — mas define quando trabalha, quanto quer ganhar naquele dia, e não depende da boa vontade de ninguém pra crescer.
É uma troca calculada, não preguiça. E enquanto o empresário local continuar enxergando isso como "falta de vontade de trabalhar", ele vai continuar perdendo gente boa pra rua.
O que o comércio pode aprender com o aplicativo
Não estou dizendo que toda empresa precisa virar um app. Mas dá pra copiar o que funciona:
● Renda variável de verdade — comissão ou bônus que faça o esforço valer a pena, não só no discurso.
● Alguma autonomia de horário — escalas que respeitem a vida do funcionário, não só a conveniência do caixa.
● Meta clara e visível — as pessoas trabalham mais quando sabem exatamente o que estão perseguindo.
● Reconhecimento — não custa nada e é o que mais falta.
O alerta
Campos não vai ficar sem trabalhador. Vai ficar sem trabalhador disposto a aceitar as condições de sempre. E se o empresariado local não perceber essa diferença agora, vai continuar vendo a vitrine vazia de candidato enquanto reclama que "ninguém quer trabalhar" — quando na verdade é o convite que não está bom o suficiente.




