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Cidades

O acordo silencioso que está matando o comércio de Campos

Tem um número que incomoda quem estuda a economia de Campos: R$ 1.300. É perto disso que gira o salário médio de boa parte dos trabalhadores da nossa cidade

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Tem um número que incomoda quem estuda a economia de Campos: R$ 1.300. É perto disso que gira o salário médio de boa parte dos trabalhadores da nossa cidade. Um valor que, se a gente for comparar com o resto do país, já nasce atrasado. O IBGE mostra que o comércio, maior empregador do Brasil, paga em média R$ 2.797,83 por mês. O Rio de Janeiro, nosso próprio estado, tem média salarial de R$ 4.501,35. Ou seja, Campos não está apenas abaixo da média nacional. Está bem abaixo da média do próprio estado onde vive.

E o curioso é que, ao mesmo tempo em que esse número persiste, eu ando conversando com motoboys e motoristas de aplicativo pela cidade, e uma coisa se repete. Muitos deles, depois de descontar gasolina, manutenção e as horas de trabalho, fecham o mês com R$ 3 mil, R$ 4 mil, às vezes R$ 5 mil líquidos no bolso. O dobro, o triplo do que o comércio formal costuma pagar. Isso não é exceção, é uma tendência que está diante dos nossos olhos, só que ainda não entrou nas planilhas oficiais nem, principalmente, na cabeça de quem contrata e de quem é contratado em Campos.

Eu não escrevo isso para apontar culpados. Seria fácil, e covarde, colocar a responsabilidade só no empresário que paga pouco, ou só no profissional que entrega pouco. A realidade é mais honesta que isso. Os dois lados dessa equação foram formados dentro de uma cidade que, por muito tempo, funcionou com regras que hoje já não valem mais. E é sobre essa mudança de regras que eu quero conversar aqui.

Durante décadas, em Campos, o comércio e a indústria local puderam contratar pagando pouco porque, na prática, não existia muita alternativa. Quem precisava trabalhar, trabalhava onde havia vaga, no valor que era oferecido. Era um mercado sem concorrência real pela mão de obra. O empresário definia o preço, e o trabalhador aceitava, porque a cidade não oferecia muitas portas de saída.

Só que essa lógica mudou, e mudou rápido. Chegaram os aplicativos, chegou o MEI, chegou a facilidade de empreender sozinho, chegou também a possibilidade real de trabalhar remotamente para empresas de fora daqui, às vezes até de fora do país. De repente, o trabalhador campista passou a ter opção. E quando existe opção, o preço da mão de obra muda, goste o empregador ou não. Isso não é ideologia, é economia básica. Quem paga abaixo do que o mercado está pagando, em algum momento, para de conseguir gente boa.

Por isso eu acredito que Campos precisa de uma mudança de mentalidade dos dois lados, ao mesmo tempo, e com o mesmo peso de responsabilidade.

Do lado do empresário, é preciso entender que pagar pouco deixou de ser uma vantagem competitiva e virou um risco. Quem quer mão de obra qualificada vai ter que pagar por ela, de verdade, porque hoje essa mão de obra tem alternativa fora das quatro paredes da loja, da oficina, da fábrica. Não adianta reclamar que "ninguém quer trabalhar", quando na verdade o que está acontecendo é que as pessoas encontraram formas melhores de ganhar a vida. Pagar salário justo deixou de ser generosidade. Virou estratégia de sobrevivência do próprio negócio.

Do lado do profissional, também existe uma mudança necessária, e ela é igualmente importante. Não adianta reivindicar valorização sem entregar resultado. Ganhar mais também é consequência de entender que se está ali para gerar valor para a empresa, para o cliente, para quem está pagando aquele salário. Quem entrega o mínimo, recebe o mínimo, e isso vale tanto para dentro de uma empresa quanto para quem decide empreender por conta própria. A régua subiu para os dois lados. Empresário que não valoriza perde gente boa. Profissional que não entrega resultado não consegue sustentar um salário maior, mesmo que reclame que merece.

E aqui entra a pergunta que eu acho que precisa guiar essa conversa toda: o que uma pessoa em Campos pode fazer, de forma simples e concreta, para dobrar essa média de R$ 1.300, sem depender de uma revolução na cidade inteira?

A primeira coisa é enxergar que existe, sim, um mercado pagando mais, mesmo dentro de Campos. Os aplicativos de entrega e transporte são a prova mais visível disso hoje. Não estou dizendo que todo mundo deveria virar motoboy. Estou dizendo que o exemplo mostra algo mais profundo: quando existe remuneração por resultado, o ganho aumenta. Isso pode ser replicado em qualquer profissão, dentro ou fora de um emprego formal.

A segunda é a especialização visível. Numa cidade do tamanho de Campos, o boca a boca ainda é a força mais poderosa que existe. Um eletricista, um técnico de refrigeração, um profissional de qualquer área que atende bem, resolve o problema e constrói reputação, deixa de competir pelo preço mais baixo e passa a poder cobrar pelo valor que entrega. Isso, sozinho, já é capaz de dobrar uma renda.

A terceira é transformar em serviço pago aquilo que hoje já se faz de graça. Muita gente em Campos tem uma habilidade que ajuda vizinhos, parentes e amigos sem cobrar nada por isso. Só que esse conhecimento, tratado como profissão, com um mínimo de organização, já é uma fonte de renda que está esperando para ser cobrada.

A quarta é usar o tempo ocioso do dia como se fosse capital. Duas horas bem aproveitadas, todos os dias, em uma atividade paralela, seja vendendo, atendendo, produzindo, entregando, são suficientes para começar a mudar um número que hoje parece travado.

E a quinta, talvez a mais importante, é entender que Campos não precisa mais ser o único mercado de quem vive aqui. O trabalho remoto e as plataformas digitais abriram a possibilidade de morar em Campos e trabalhar para fora, cobrando o preço de fora. Isso, sozinho, é capaz de multiplicar uma renda que a cidade, sozinha, talvez nunca pagasse.

No fim, eu acredito que essa conversa não é sobre culpa, é sobre atualização. Campos vai continuar pagando R$ 1.300 de média enquanto empresário e profissional insistirem em jogar com as regras antigas, cada um esperando que o outro mude primeiro. Quem entender essa virada antes, de qualquer um dos dois lados, vai sair na frente. E quem entender dos dois lados ao mesmo tempo, empresário pagando o que é justo, profissional entregando o que promete, esse vai ser o verdadeiro ponto de virada que essa cidade precisa.