São cinco e dez da manhã em Ururaí. O céu ainda nem decidiu se vai clarear, e a Dona Cida já está no ponto, bolsa apertada contra o peito, olhando pela terceira vez para o fim da rua. O ônibus das cinco não veio. Talvez venha o das cinco e meia. Talvez não. Se atrasar de novo, a patroa já avisou. E Dona Cida não pode perder aquele emprego, porque em casa tem o neto, tem a filha que ficou sozinha com a criança, tem o remédio de pressão que subiu de novo na farmácia.
Enquanto espera, o celular vibra. É o grupo da família. Alguém mandou um vídeo, alguém respondeu com raiva, um primo saiu do grupo, a tia pediu paz. Vermelho de um lado, verde e amarelo do outro. Lula ou Bolsonaro. Parece final de campeonato. Todo mundo com certeza absoluta de que, se o seu lado ganhar, a vida finalmente melhora.
Dona Cida guarda o celular. O ônibus ainda não apareceu.
Eu quero conversar com você hoje sobre isso. Não sobre quem vai ganhar no domingo que vem. Sobre uma outra eleição, que está acontecendo agora mesmo, todos os dias, e que quase ninguém percebeu que está disputando.
O Brasil que briga e a vida que não espera
É fato. O Brasil está dividido. Tem família que não senta mais junta no almoço de domingo. Tem amizade de trinta anos que acabou por causa de um comentário. E eu entendo, de verdade, porque política importa. Ela decide o preço de muita coisa, decide se tem médico no posto, decide se o ônibus passa.
Mas tem uma coisa que me impressiona profundamente. É ver quanta gente entrega a esperança inteira da própria vida nas mãos de alguém que nunca vai saber o seu nome. Que nunca pisou na sua rua. Que não sabe que a sua geladeira está com a borracha solta, que a conta de luz veio o dobro, que seu filho precisa de tênis para a escola e você está esperando o fim do mês para ver se dá.
A gente discute presidente como quem discute o próprio destino. E enquanto isso, o único candidato que realmente decide o seu amanhã segue esquecido. Ele não tem santinho. Não tem jingle. Não aparece no horário eleitoral. Não tem número na urna.
Ele está no seu espelho.
Tapera, Travessão, Morro do Coco: a conta que não fecha
Deixa eu te contar de algumas pessoas. Talvez você conheça alguma delas. Talvez seja uma delas.
O Seu Jorge mora na Tapera. Tem 47 anos e trabalhou dezoito numa mesma empresa, até o dia em que chamaram ele numa sala e disseram que estavam "reestruturando". Ele saiu de lá com uma caixa de papelão e uma vergonha que não coube dentro dela. Em casa, a esposa ainda conta com ele. Os dois filhos ainda contam com ele. E ele, que sempre foi o homem que resolvia, hoje acorda às três da manhã olhando para o teto, fazendo conta de cabeça, porque a conta no papel dá medo demais.
O Anderson mora no Parque Caju, na Rua São Bartolomeu. Às quatro e meia ele já está de pé, no escuro, tomando café em silêncio para não acordar ninguém. Antes de sair, passa no quarto do filho, que dorme de lado abraçado no travesseiro, e dá um beijo na testa dele. É o único encontro dos dois no dia. Depois caminha até o ponto para pegar o ônibus das cinco rumo ao Porto do Açu. Horas de estrada para ir, o dia inteiro de trabalho pesado, horas de estrada para voltar. Quando abre o portão de casa, já são quase nove da noite. O menino está de banho tomado, de pijama, com os olhos pesados. Às vezes ainda dá tempo de ouvir um "oi, pai" arrastado antes de ele pegar no sono. Às vezes não. O Anderson não reclama. Ele sabe por que faz isso. Mas tem noite em que ele fica parado na porta do quarto, olhando o filho dormir, e se pergunta quantos aniversários, quantas tarefas de escola, quantas primeiras vezes ele está perdendo enquanto está dentro de um ônibus.
O Kauã tem 19 anos e mora no Travessão. Ele queria fazer faculdade. Tinha até escolhido o curso. Mas o pai adoeceu, o dinheiro sumiu, e a necessidade bateu na porta antes do sonho. Hoje ele pega a moto emprestada e roda o dia inteiro fazendo entrega. Ninguém perguntou se ele estava pronto para ser homem da casa. A vida simplesmente entregou o peso e foi embora.
A Larissa é de Goytacazes. Foi a primeira da família a se formar. A mãe chorou na colação, a avó guardou a foto na carteira. Faz um ano e meio que ela manda currículo. Um ano e meio ouvindo "falta experiência" de quem nunca deu a primeira oportunidade. O diploma está na parede, bonito, emoldurado. E ela trabalha de atendente, com vergonha de encontrar os colegas de turma.
E tem a Dona Cida, lá em Ururaí, que a essa hora provavelmente ainda está no ponto.
No Morro do Coco, em Santo Eduardo, em cada canto dessa planície, tem gente assim. Gente que não é preguiçosa, que não é fraca, que não desistiu. Gente cansada. Gente que carrega uma família nas costas e sorri no almoço de domingo para ninguém perceber que está pesado demais.
As coisas estão caras. O mercado sobe toda semana. O ônibus não passa. O mês acaba antes do dinheiro. E eu vou te falar com toda a sinceridade de quem já esteve do lado de lá do balcão: colocar toda a sua fé na política é como esperar aquele ônibus das cinco. Ele pode até vir. Mas você não pode organizar a sua vida inteira em cima dessa promessa.
Fé em Deus e mão na massa
Eu já perdi uma empresa. Vi material de obra subir de preço de um mês para o outro e levar embora anos de trabalho. Sei o que é olhar para a família e sentir que falhou. E sei também o que me levantou: fé em Deus e trabalho. Nessa ordem, mas nunca uma sem a outra.
Tem uma frase antiga, lá no livro de Tiago, que diz que a fé sem obras é morta. Eu acredito nisso com todas as minhas forças. Deus não despreza quem ora. Mas Ele também costuma abrir a porta para quem já está andando na direção dela.
Sua vida pode mudar. Eu não estou dizendo que é fácil, nem que é rápido, nem que é justo você ter que carregar tanto. Não é. Mas eu estou dizendo que a mudança não vai começar em Brasília. Ela começa na sua cozinha. Na sua rotina. Numa decisão que você toma numa segunda-feira qualquer, sem plateia, sem aplauso.
Ela começa por você.
Cinco passos para começar a virar o jogo
1. Faça a conta honesta. Durante trinta dias, anote para onde vai cada real. Cada um. O pão, a recarga, o lanche, a parcela. Não é para se culpar, é para enxergar. A gente não consegue consertar o que tem medo de olhar. Muita gente descobre ali, no papel, um vazamento que nem sabia que existia. E descobre também que é mais forte do que imaginava, porque sobreviveu com tão pouco.
2. Transforme o que você já sabe fazer em renda. Você faz um salgado que todo mundo elogia? Sabe consertar ventilador, trocar resistência de chuveiro, fazer faxina caprichada, cortar cabelo, costurar uma barra? Isso é dinheiro parado dentro de você. Comece pela vizinhança, pelo grupo da igreja, pelo status do WhatsApp. Não espere estar perfeito. O primeiro cliente não precisa de perfeição, precisa de confiança.
3. Aprenda uma habilidade que o mercado paga, em noventa dias. Instalação de ar-condicionado, elétrica básica, marketing digital, confeitaria, manutenção de celular. Tem curso gratuito, tem curso barato, tem gente disposta a ensinar. Larissa, se você está lendo isso: seu diploma não perdeu o valor, ele só precisa de uma habilidade prática do lado para abrir porta. Noventa dias parecem muito. Mas daqui a noventa dias eles vão passar de qualquer jeito. A pergunta é com o que você vai chegar lá.
4. Mude a roda. Você é a média das conversas que tem. Se todo dia você escuta só reclamação, desânimo e "aqui em Campos não tem jeito", uma hora você acredita. Procure gente que está construindo alguma coisa, mesmo que pequena. Sente perto de quem está tentando. Coragem pega, do mesmo jeito que o desânimo pega.
5. Uma hora por dia que é sua. Não é do patrão, não é da novela, não é do grupo da família. É sua. Para estudar, planejar, produzir, testar uma ideia. Kauã, pode ser a hora antes de pegar a moto. Seu Jorge, pode ser aquela hora das três da manhã que hoje você usa para sofrer. Uma hora por dia, durante um ano, são mais de trezentas e sessenta horas investidas em você. Nenhum governo vai te dar isso. Só você pode.
Quando uma pessoa muda, a rua muda
Eu sei o que alguns vão pensar. "Fácil falar." E é mesmo. Fazer é que é difícil. Mas deixa eu te mostrar uma coisa que eu vi acontecer muitas vezes nesses vinte e cinco anos de estrada.
Quando uma pessoa decide mudar, ela não muda sozinha. O filho percebe. O vizinho percebe. A Dona Cida que começa a vender marmita no bairro acaba empregando a vizinha. O Kauã que aprende a instalar ar-condicionado ensina o primo. O Seu Jorge que abre um pequeno serviço de manutenção contrata o rapaz da esquina que estava sem rumo. É assim que bairro muda. É assim que cidade muda. Não de cima para baixo. De dentro para fora.
Campos dos Goytacazes já foi uma das cidades mais ricas desse país. Tem história, tem gente trabalhadora, tem terra, tem talento. O que falta não é capacidade. É gente acreditando que pode, e agindo como quem acredita.
E que fique claro: eu não estou dizendo para você não votar, nem que política não importa. Vote. Vote com consciência, pesquise, cobre depois. Isso é dever de cidadão. O que eu estou dizendo é que você não pode terceirizar a sua vida. Nenhum presidente, de nenhum lado, vai acordar às cinco da manhã no seu lugar. Nenhum deles vai dar aquele beijo na testa do filho do Anderson antes de o ônibus passar.
No domingo, dia 4 de outubro, vá até a urna e escolha com cuidado.
Mas na segunda-feira, dia 5, acorde cedo, olhe no espelho, e vote em você.
Essa é a eleição que ninguém pode ganhar no seu lugar.




